A
REVOLUÇÃO DE 1930 – VITÓRIA BANHADA EM SANGUE
por Mônica Cristina Moreira Pinto
Um
olhar pelo mundo, após a Primeira Guerra Mundial, vai constatar um
significativo e crescente desequilíbrio na economia internacional. É assimétrico
o desenvolvimento dos Estados Unidos da América em relação ao resto do
planeta, isolando-se da economia mundial. Esta, por outro lado, não era capaz de gerar demanda suficiente para uma
expansão duradoura. Na realidade, a situação não era nova: os salários se
desvalorizavam e os lucros cresciam de forma ponderável. A massa populacional,
entretanto, não conseguia consumir o que era rapidamente produzido, gerando
superprodução e especulação.
Na
década de 1920, o psicólogo Émile Coúe (1857-1926) popularizou a auto-sugestão
otimista. Repetia-se, constantemente o slogan:
Todo
dia, em todos os aspectos, estou ficando cada vez melhor.
Note-se
que a demanda fora lentamente estimulada, com a facilitação de crédito ao
consumidor, mormente nos Estados Unidos da América. Desta forma, os bancos, que
deram sustentação ao boom especulativo imobiliário, por estarem
sobrecarregados de dívidas não honradas – provocadas pelos otimistas a que
nos referimos e pelos usuais inadimplentes –, negavam-se tanto a conceder
novos empréstimos para o setor quanto a refinanciar os já existentes.
No
início do Século Vinte, grandes proprietários de terra comandavam a política
brasileira. Os Governadores de Estados atuavam como representantes das
oligarquias regionais dos coronéis, dando apoio e sustentação ao Presidente
da República.
Os
que se locupletam de tal troca de favores são, principalmente, os Estados de
Minas Gerais e São Paulo, grandes produtores e exportadores de café, uma vez
que, quando caía a cotação internacional nos preços da rubiácea, o governo
da União comprava os estoques dos fazendeiros daquelas Unidades da Federação,
rateando as perdas com o restante do país.
Concomitantemente,
na década de 1920, há um crescimento das cidades e pronunciada industrialização,
que fazem surgir ou ascender novos grupos sociais. Com isto, sob a influência
dos acontecimentos russos de 1917, funda-se, em 1922, o Partido Comunista do
Brasil; da classe operária emergente surge o BOC (Bloco Operário e Camponês),
manifestando-se ambas as facções através de greves. As elites descontentes
lançam, em 1926, o Partido Democrático tudo isto denotando que alguns setores
da classe média, pequenos proprietários de terra alijados do governo e jovens
oficiais do Exército, movimento denominado tenentismo[i],
não mais aceitavam uma administração voltada aos interesses dos fazendeiros
de café.
Em outro artigo de nossa autoria, quando traçamos um breve histórico da Polícia Militar do Espírito Santo, realçamos, ao final, a eclosão de diversas revoltas militares.
Os
levantes de 1922 e 1924 haviam registrado o descontentamento popular.
Ainda
em 1922, realizou-se a Semana de Arte Moderna, levantando questionamentos sobre
a realidade brasileira, num reflexo das transformações sociais e econômicas
pelas quais o País passava.
Vem,
então, o crash da Bolsa de Valores de Nova York e a grande depressão.
Os
reflexos não tardaram a ser sentidos em nosso País.
A
preço da saca de café, de duzentos mil réis em agosto de 1929, cai para 21
mil réis em janeiro de 1930.
A
crise se alastra, atingindo toda a economia brasileira: mais de 500 fábricas
encerram suas atividades em São Paulo e Rio de Janeiro, o que contribui para
que, no final de 1929, o Brasil tivesse quase dois milhões de desempregados.
Miséria
e fome para a maioria da população.
Naquela
época, mineiros e paulistas cediam, tradicionalmente, em condições de
igualdade, os políticos que desempenhariam a Presidência da República. Tal prática
era denominada de política do café com leite, no curso da qual
alternavam-se políticos de São Paulo – grande produtor de café – e de
Minas Gerais – famoso por sua produção de laticínios – na Presidência da
República Federativa do Brasil.
Era
Presidente da República nessa quadra da história o paulista Washington Luís,
que havia iniciado seu mandato em 15.11.1926.
Washington
Luís, entretanto, não honrou o acordo da política do café com leite.
Em janeiro de 1930, ao invés de indicar para a sua sucessão o mineiro Antônio
Carlos de Andrade, apoiou o paulista Júlio Prestes, para a presidência, tendo
Vital Soares como vice-presidente.
Passou,
assim, à oposição, o Estado de Minas Gerais unindo-se ao Rio Grande do Sul e
à Paraíba, formando a Aliança Liberal. O objetivo do grupo era atrair as
elites agrárias, os militares (tenentistas), setores da classe média urbana e
trabalhadores. Foi lançada a candidatura do gaúcho Getúlio Vargas, que
ostentava por vice-presidente o paraibano João Pessoa.
O
país se mobiliza em torno da campanha eleitoral que culmina por eleger
Presidente da República, em 1º de março de 1930, o indicado de Washington Luís,
Júlio Prestes.
Inquinadas
de fraudulentas, as eleições de março foram a gota que faltava para que o
povo se manifestasse abertamente contra o governo.
Já
então o descontentamento era flagrante, pois as eleições, caracterizavam-se
pelo engodo: o voto não era secreto, razão pela qual a afluência dos
eleitores às urnas era pífia.
Eleito
Júlio Prestes afigurou-se pertencer ao passado o "momento revolucionário".
No dia 03 de maio, entretanto, com a reabertura do Congresso, constataram-se
pronunciadas discordâncias entre a oposição e a maioria governista.
Não
bastassem os fatores mencionados, outro fato agravou a crise: o governador da
Paraíba, João Pessoa fora assassinado, no dia 26 de julho, numa confeitaria do
Recife. O crime havia sido motivado por questões ligadas à política
paraibana, porém, por ter figurado como candidato à vice-presidência,
juntamente com Getúlio Vargas, a morte de João Pessoa provocou grande comoção
nacional.
Desta
forma, Júlio Prestes não chega a assumir a Presidência do Brasil, pois, vinte
e dois dias antes de terminar o mandato de Washington Luís, a Revolução havia
eclodido.
Alguns
autores creditam a Antônio Carlos de Andrade a frase: façamos a revolução,
antes que o povo faça, tentando demonstrar que já se admitia a existência
de um clima revolucionário.
No
dia 5 de outubro de 1930, Osvaldo Aranha e Flores da Cunha, com apenas cinqüenta
homens, tomam o Quartel-General de Porto Alegre. Ao mesmo tempo, agiram os
revolucionários em Minas Gerais e na Paraíba.
No
Recife, Juarez Távora levou o Governador de Pernambuco, Estácio Coimbra, a
encetar fuga. Foi questão de tempo: o Norte e o Nordeste do país estavam em
poder dos revolucionários.
Marchou,
então, Juarez Távora em direção ao Leste atravessando Alagoas, Sergipe e
chegando ao Estado da Bahia.
No
Espírito Santo a situação foi, inicialmente, constrangedora. Aristeu Borges
de Aguiar, Presidente do Estado, empossado aos 30.06.1928, havia apoiado a
candidatura de Júlio Prestes e, nos limites que lhe impunha a miséria aqui
vigorante, havia combatido os revolucionários.
Narram
os historiadores locais que, aos 13.02.1930, a Aliança Liberal chegava a Vitória,
pretendendo realizar um comício na praça que se localizava defronte ao Colégio
Nossa Senhora Auxiliadora (Carmo), pois a polícia tinha impedido a sua realização
na Praça Costa Pereira. A caravana dos revolucionários veio comandada pelo
Major Cristóvão Barcelos e o Senador Pires Rabelo, do Piauí.
À
hora aprazada, postou-se a polícia montada, cercando todo o local. A multidão
se acotovelava, sedenta por ouvir os discursos dos oradores, até que soou o
primeiro tiro, vindo do morro de São Francisco. Apagaram-se, então, as luzes
e, de inopino, seguiu-se intenso tiroteio. O populacho, em pânico, gritava,
corria, confundia-se, alguns eram acometidos de crises nervosas. Houve mortes. O
Colégio foi invadido. Os vizinhos abrigavam o povo apavorado. Todos revoltados
contra o Governo Estadual. A tudo isto seguiu-se o empastelamento[ii]
de “A Gazeta”.
Vitória
amanheceu, no dia seguinte, consternada, como se houvesse passado por uma catástrofe.
Maior
desconforto causou, todavia, o fato de que a Revolução no centro do Brasil era
chefiada por Minas Gerais, Estado vizinho, o que levou Aristeu Borges a destacar
a milícia por vários setores do território, a fim de combater os insurretos.
Em virtude disto, inviabilizou-se a defesa de Vitória, Capital do Estado, pois
não recebeu qualquer apoio do Comandante da Guarnição Federal.
Já
então se avizinhava a ofensiva das colunas do Coronel Otávio Campos do Amaral,
chefe das forças revolucionárias em operação no Espírito Santo.
Aristeu
Borges de Aguiar não resistiu à pressão e, aos 16.10.1930, fez-se passageiro
do cargueiro italiano Atlanta, que se encontrava no porto de Vitória, em
viagem a Lisboa e outros portos da Europa, via Salvador, no Estado da Bahia[iii],
abandonando o seu posto. O historiador José Teixeira de Oliveira[iv]
assevera que o destino do Presidente do Estado era o Rio de Janeiro, porém, com
as devidas escusas sempre repetidas pelos pesquisadores – como nós –
iniciantes, preferimos a explicação contida na obra já citada de Maria Stella
de Novaes. A razão desta opção prende-se ao fato de que o Rio de Janeiro era
a sede do Governo Federal, local para onde convergiam todas as forças
revolucionárias e onde foi deposto o Presidente Washington Luís. Lisboa também
é apontada como o destino do governante do Estado pelo historiador capixaba
Luiz Serafim Derenzi[v].
Não
havia ninguém desempenhando a função de vice-presidente de Aristeu Aguiar,
prometida ao médico Joaquim Teixeira de Mesquita que ocupava uma vaga de
senador, guardando a cadeira respectiva para o ex-Presidente Florentino
Ávidos, enquanto aquele cumpria o prazo de carência constitucional para o
desempenho da função.
Ausente
o vice-presidente, trânsfuga o Presidente, assumiu a função o Coronel José
Armando Ribeiro de Paula, nomeado interventor federal por Washington Luís e
que, poucos dias antes, havia assumido o Comando do 3° Batalhão de Caçadores
do Exército.
Não
chegou o interventor federal a assumir o exercício da presidência pois, no dia
18.10.1930 a Coluna do Comandante Amaral ocupou Vitória, nomeando para
constituir a Junta Governativa do Estado do Espírito Santo os doutores João
Manoel de Carvalho, Affonso Corrêa Lyrio e o Capitão João Punaro Bley.
Com
o deslocamento da Coluna Amaral para o Sul do País, foi instituída a Guarnição
Militar de Vitória, composta pelo 3° B. C. do Exército, pelo Regimento
Policial Militar do Estado do Espírito Santo e pelo 2° Batalhão da referida
Coluna. A guarnição ficou sob o comando do Tenente Coronel Aristides Paes de
Souza Brasil, incumbindo ao Capitão do Exército Carlos Marciano de Medeiros
(no posto de Tenente Coronel) o comando do Regimento local e ao 1° Tenente em
Comissão Manoel Rodrigues Vilá o comando da fração da coluna revolucionária
que permaneceu no Estado.
Concomitantemente,
no Sul do País, capitaneadas por Getúlio Vargas, as forças revolucionárias
venceram incipiente resistência no Rio Grande do Sul, dirigindo-se a Santa
Catarina e Paraná. Para a ocupação de São Paulo, era imprescindível,
estrategicamente, o ataque das tropas do Sul a Itararé. Todavia, durante os
preparativos para o ataque àquela cidade, um grupo de generais e almirantes
sediados no Rio de Janeiro entrou em ação, depondo o Presidente Washington Luís,
aos 24.10.1930.
Formou-se,
por isto, uma Junta Pacificadora, integrada pelo General Mena Barreto, General
Tasso Fragoso e Almirante Isaías Noronha. São ignorados os motivos da atuação
dos militares. O certo, contudo, é que a Junta admitiu, sem resistência, a
liderança de Getúlio Vargas. Este, tendo chegado ao Rio de Janeiro no dia 3 de
novembro de 1930, assumiu provisoriamente o governo da República como delegado
da Revolução, em nome do Exército, da Marinha e do Povo.
Terminava, aí, a República Velha.
O gaúcho Getúlio Vargas consolidou-se no poder e dominou a cena política brasileira durante 24 anos, até o suicídio em 1954, quando ocupava pela segunda vez a presidência da República.
De sua carta testamento, extraímos:
Sigo
o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos
grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma Revolução
e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade
social. Tive de renunciar.
................................................................................................
Lutei
contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho
lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo.
Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente
dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.
Mais
de vinte anos depois da tragédia ocorrida em Vitória quando da revolução de
1930, junta-se o sangue do líder revolucionário ao dos capixabas imolados por
sua crença política, fechando mais um ciclo da história.
[i] O tenentismo foi o movimento de revolta dos jovens oficiais do Exército e defendiam o fim da corrupção e algumas reformas, como o voto secreto e no ensino, mas também acreditavam que o povo deveria ser dirigido pelos mais capazes, porque era despreparado e inculto.
[ii] Empastelamento, figurativamente, significa depredar, destruir as instalações de um jornal, revista etc., por motivos políticos ou pessoais.
[iii] Esta é a versão dada aos fatos por Maria Stella de Novaes, in História do Espírito Santo, Ed. Fundo Editorial do Espírito Santo.
[iv] História do Estado do Espírito Santo, Vitória, 2ª ed., 1975, pág. 428.
[v] Biografia de uma Ilha, RJ: Pongetti, 1965, pág. 237.